quarta-feira, 11 de novembro de 2015

É Natal, filha.


É muito difícil quando chega o natal. 

O natal sempre foi uma época difícil em minha vida. Como meu pai foi o décimo quinto filho de uma família pobre de Teófilo Otoni, seus natais foram marcados pelas diferenças dos sobrinhos que tinham condições e meu pai que não tinha. Na família da minha avó, aquela história de comprar um sapato pra dois filhos e um ir com um chinelo e uma atadura no pé esquerdo e o outro ir com o chinelo e a atadura no pé direito pra aula foi verdade. 

Meu pai foi marcado pelo palpite de vários e vários irmãos acima dele, cunhados e cunhadas que tinham idade pra serem seus tios e pais que já tinham idade para ser seus avós. Isso fez com que ele escolhesse o caminho da individualidade. Para virar o adulto (maravilhoso) que é.

Acontece que o natal não tem a ver com individualidade. Não tem a ver com a escolha da partida. Tem a ver com a escolha da partilha. 

E um dia, ele chega, podemos escolher: vamos ter natais marcados por nossas dores, ou natais marcados por nossos amores?

Eu, apesar das escolhas dos outros, e de tantos natais marcados por dores, escolhi natais marcados por meus tantos amores.

Na foto acima, vemos a casa da minha filha, Beatriz, de 4 anos e oito meses, enfeitada para o natal pelo amor que mora comigo. É o quinto natal que Beatriz passa entre nós, um na barriga da mãe, quatro fora da barriga. Até hoje, não me foi permitida a presença da minha filha em nenhum natal em minha casa. Ontem, fiquei sabendo depois de insistir, que a mãe de Beatriz vai com ela para Belo Horizonte passar a próxima semana. 

E eu não vou estar lá. Infelizmente.

Mais uma vez, não vou poder passar o natal com minha filha. Nem fora de época. Há um ano e meio, quando a juíza nos chamou e fez uma rodada com uma psicóloga indicada pelo poder público, ficou constatado, provado, aconselhado, que ela já deveria passar seus momentos comigo sozinha. Que isso, segundo o laudo, seria importante para o desenvolvimento dela. Mas a mãe desconsidera tanto isso, quanto o mais importante: o Amor que temos guardado para Beatriz.

A alienação parental se exerce de várias formas. Entre elas, a mais traiçoeira de todas: Ela manda fotos, deixa que falemos com ela, eu encontro com minha filha, mas exclusivamente na presença da mãe. Como se eu fosse alguém que devesse ser cerceado. Sou como um cachorro que deve permanecer na coleira. Um passarinho que deve permanecer na gaiola. Um pai que não merece brincar com sua filha sem os olhos persecutórios da mãe. Mesmo tendo o aval da justiça. Mesmo dando exclusivamente amor à minha filha. Mesmo fazendo de tudo para a mãe dela.

Não, não vejo problema algum da mãe estar junto. Até incentivo e acho ótimo. Mas não todas as vezes, sem excessão.

A "guarda compartilhada", neste caso, é exercida nesta balança:

  • A mãe da minha filha quis levá-la ao exterior para passar 10 dias com ela na ocasião de um casamento. Esta é a única situação, em nossa justiça que se diz igual, em que o pai é consultado. Eu prontamente disse sim. No mesmo dia fui com ela em um cartório e dei minha permissão, amorosamente. De verdade. 
  • Eu peço a ela que minha filha vá dormir uma única noite na casa dela de Belo Horizonte, no quarto que preparei pra ela com todo amor, com todo carinho, onde fiz com minhas mãos os desenhos na parede e ela não permite. Eu convido a mãe que vá dormir lá também, pra que o principal seja preservado, e eu ouço um inquestionável "não". Avesso ao bom senso. Avesso ao amor. Avesso à justiça divina e à justiça dos homens.


Acredito que é assim que se constrói uma alienação parental velada. Talvez eu esteja errado. Talvez não. A mãe de minha filha acha que o amor da família do pai deve ser dado homeopaticamente à nossa filha, em gostas. E que isso basta. Tenho tios que morreram sem conhecê-la. Tenho tios que já estão sem condições de saúde e não vão conhecê-la. 

A recordação maior e única que tenho da minha avó, mãe do meu pai, data da minha primeira infância. Quando eu era menor que minha filha. E carrego essa lembrança pro resto da vida. Penso que ela não vai ter a recordação familiar de muita gente que foi importante pra mim e que faz parte de sua história. Nada disso tem volta. 

Hoje cedo, pedi ao meu pai que tocasse ao piano a valsa Subindo ao Céu, que aqui coloco na gravação de Luiz Gonzaga, curiosamente, do ano do nascimento do meu pai. Era a música que minha avó tocava pra ele ao telefone para amainar a saudade. Ele, que aprendeu a tocar piano estudando em uma mesa com as teclas pintadas e aos 11 anos já dava aulas de acordeón, tocou essa música muitas vezes na noite quando não pode ir ao enterro de sua mãe, à época. Morávamos em Brasília e as condições não o permitiram chegar. Foi uma noite triste, de dor imensa. A última recordação que trago de minha avó foi ela pegando um papai noel de chocolate e me entregando, com amor e carinho profundos. Depois disso ela subiu ao céu. Como eu poderia não amar o natal? Apesar de tudo e de todos?

Fica a música. Fica o amor de minha avó. Fica o desejo de diminuir as distâncias e as incompreensões do mundo e das pessoas, que estão presas nas gaiolas da mágoa e do dissabor. Fica o desejo de minha filha poder curtir o natal que sempre sonhei pra mim e pra ela. Quero dar a ela, um dia, de presente o natal que sempre sonhei. Ela merece. 





2 comentários:

Flanador disse...

Meu amigo, continue fazendo o que você acha certo, que vem do seu coração. E que sua maneira de ser seja seu conforto na saudade e exemplo mesmo distante para sua filha. Se ela não pode ver por enquanto, Deus certamente encontrará uma maneira de fazê-la ver. Forte abraço, Gustavo Perazzo

Ana disse...

<3